O desencanto com a escola amplificou-se durante as três últimas décadas do século XX, em função das mudanças que atingiram os setores econômico, político e social. Este conjunto de mudanças profundas afetou a juventude de forma muito particular, notadamente, no que diz respeito ao tipo de relação, quer com a escola, quer com o mercado de trabalho: passou-se de uma relação marcada pela previsibilidade para uma relação em que predomina a incerteza. Inaugura-se no imaginário social uma escola “desintitucionalizada” e ilegítima consequência da distância, cada vez maior entre as expectativas sociais depositadas na escola e as possibilidades da sua concretização.

Nas duas últimas décadas do século XX, um conjunto de conceitos como o de “qualidade”, o de “empresarização” e o de “inovação”, surgiu como remédio para a escola, a partir de diagnósticos centrados na questão da sua eficácia. A questão central da escola, porém, é, essencialmente, um problema de ilegitimidade, o que condiciona o principal requisito para que a escola seja eficaz: a reconstrução de um sentido positivo para o trabalho que nela é realizado.

As crescentes manifestações de “recusa” de aprender por parte dos alunos, a violência escolar, a indisciplina, o analfabetismo funcional, a evasão e os baixos índices de rendimento nas avaliações internacionais são decorrências da relação “profana” que a sociedade estabeleceu com a escola desde o final do século XX.

O “mal-estar docente” traduzido nas estatísticas de abandono e de somatizações deflagram o sofrimento que os professores vem amargando, uma vez que despontam como alvo predileto de responsabilização da situação da escola.

Segundo Rui Canário, a transformação da escola atual implica agir em três planos distintos:

• Pensar a escola a partir do não escolar. A experiência mostra que a escola é muito dificilmente modificável, a partir da sua própria lógica. A maior parte das aprendizagens significativas realiza-se fora da escola, de modo informal, e será fecundo que a escola possa ser contaminada por essas práticas educativas que, hoje, nos aparecem como portadoras de futuro.

• Desalienar o trabalho escolar, favorecendo o seu exercício como uma “expressão de si”, quer dizer, como uma obra, o que permitirá passar do enfadonho ao prazer.

• Pensar a escola a partir de um projeto de sociedade, com base numa ideia de que sociedade queremos construir. Não será possível uma escola que promova a realização da pessoa humana, livre de tiranias e de exploração, numa sociedade baseada em valores e pressupostos que sejam o seu oposto.

Os professores e os alunos são ambos, prisioneiros dos problemas e dificuldades que decorrem da falta de sentido das situações escolares. A construção de uma nova relação com o saber, por parte dos alunos, e de uma nova forma de viver a profissão, por parte dos professores, precisam ser implementadas paralelamente.

A escola surgiu, historicamente, como requisito prévio da aprendizagem, a transformação das crianças e dos jovens em alunos, futuros seres sociais adaptados. Construir a escola do futuro, que ajude a transformar a sociedade supõe, pois, trilhar o caminho inverso: transformar os alunos em pessoas. Só nestas condições a escola poderá assumir-se, para todos, como uma instituição que ajuda a transformar a sociedade.